Wall-e e nós


Taí a segunda maior animação já feita pela Pixar que é hoje o maior selo de qualidade cinematográfica no mundo. O que não é pouco.
A grande fórmula para o sucesso de público é criar personagens atraentes para as crianças e em situações complexas relacionadas ao mundo adulto. Afinal crianças sempre vão gostar de seres bonitinhos. E os adultos, bem, os adultos…

Apesar do Wall-e ser fofo e o final parecer bonitinho na superfície, tem um subtexto perturbador:

“O planeta Terra vai depender do acaso para não perecer e o ser humano tende a se comportar como robô na medida que a tecnologia avança.”

Só esse pano de fundo já abre um leque de possibilidades cinematográficas fascinantes. Mas eles vão além. O personagem principal é um robô sozinho na Terra encarregado de empacotar o lixo deixado pelos humanos enquanto esses saem num cruzeiro eterno. A única companhia é uma barata. Seu contato com a humanidade é através do filme “Funny Girl”, com a Barbra Streisand. É de cara o personagem mais triste já animado.

Pra arrancar os poucos cabelos restantes dos executivos da Disney (que adquiriu a Pixar por 7,8 bilhões de dólares, mas não influenciam na criação) fazem um filme praticamente mudo onde Charles Chaplin e Marcel Marceau estariam orgulhosos do uso do som e do silêncio nesse filme. Claro que o personagem principal faz um som engraçadinho digital no lugar da fala, mas o grande lance é a comunicação através dos gestos.

Ousadias à parte, algumas coisas continuam as mesmas na Pixar. O apuro técnico de encher os olhos e a constante evolução. Os movimentos de câmera e enquadramentos dão um toque de realismo documental sem contar o esmero gráfico da animação que a cada filme se supera. Referências à filmes clássicos como “Alien”, “Titanic” e “2001 – Uma Odisséia no Espaço” (não via uma homenagem ao clássico do Kubrick tão divertida desde “Adeus Lenin”) entre outros dá o toque cinefilia na obra.

Mas duas referências provavelmente involuntárias me vêm à mente: “Náufrago”, pelo tempo em que o personagem principal fica isolado e mantendo a audiência interessada (não cito o “Eu sou a Lenda, pois se tem alguma coisa que presta nesse filme, não vem do Will Smith). A outra é do Tom Hanks também, o “Forrest Gump”, como um herói involuntário.

Assim como Forrest embarca em aventuras motivado pelo seu amor de infância Jenny, Wall-e tem seu mundo programado abalado com a chegada de Eva, um robô com traços delicados, femininos e mais evoluída catalisa as grandes aventuras do nosso herói lixeiro. Eva veio à Terra para achar/dar a vida de volta aos humanos e servindo de contraponto ao tosco, funcional e babão Wall-e. Não tem como não sugerir o clássico embate entre homem e mulher, até porque apesar do pioneirismo da Pixar, não dá pra falar de robôs gays. Ainda. Mas de robôs loucos pode sim! Há uma ala na espaçonave para conserto de robôs defeitusos onde Wall-e vai parar e acaba libertando esses loucos que vão mexer com as estruturas do local. São os “artistas” fazendo o imprevisto e suas atitudes fora do padrão que provocam as mudanças na sociedade. No filme os humanos são tão condicionados à rotina e ao conforto conformado que acabam parecendo mais com robôs que os próprios. Nada mais justo então que um robô humanizado pelo amor tranforme o ser humano robotizado pela sua própria conformidade. Fazer a coisa certa é mais difícil que fazer a errada. E muito mais complicada que não fazer nada.
Na vida real talvez o acaso não nos traga um simpático robô obstinado e involuntário para mudar o rumo da nossa própria destruição. Esse papel vai acabar ficando com os grandes artistas e suas obras inspiradoras. Como Wall-e.

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