Sidney Lumet, o homem que não quer parar.


Em 1998, quando alardeei minha família dizendo que queria estudar cinema, ganhei de natal de minha vó um livro chamado “Fazendo Cinema”, do Sidney Lumet. Ele abriu minha cabeça para uma porção de coisas, hoje óbvias para mim mas na época surpreendentes sobre os bastidores da indústria, as relações pessoais num set de filmagem e como funciona idealmente uma equipe de filmagem. Lumet foi então meu primeiro contato com a literatura sobre cinema. Comecei, além de estudar mais a fundo sobre cinema, a ver os filmes desse velhinho simpático que acabaram entrando na minha lista de favoritos, como “Um dia de cão”, “Rede de Intrigas”, “12 Homens e uma sentença”, “Assassinato no Expresso Oriente” entre alguns outros.

Escrevo sobre ele agora não por ele ter falecido (ufa), mas por ter me surpreendido mais uma vez com sua carreira.

Em 2005 ele recebeu o Oscar Honorário pela sua obra (prêmio concedido muitas vezes àqueles diretores que todo mundo gosta e que nunca ganharam nada da Academia). Lembro no discurso quando ele agradeceu a honra e reclamou que ele não está aposentado, que poderiam esperar um pouco pois ele tinha o que fazer ainda. Ele tinha 81 anos. Todos deram risadas simpáticas como se fosse uma piada de discurso. E até porque sua carreira estagnou em qualidade em 1982, com “O veredicto”. Mas não é que o garotão estava certo?

Ontem assisti “Antes que o Diabo saiba, você está morto”

Filmaço.

Direção elegante, claustrofóbica, interpretações vicerais, filmado em digital mas tão bem fotografado que quase sempre passa despercebido.

O roteiro foge dos clichês dos filmes de roubo e traz um realismo perturbador. Enquanto a maioria dos filmes desse gênero apelam para reviravlotas à la Mamet, “Antes que o diabo Saiba…” empurra os personagens ladeira a baixo e vem uma sucessão de desgraças. Daí flashback mostram outros ângulos da história e conhecemos mais os personagens. Só que eles continuam a se ferrar. Chega um ponto em que não estamos mais torcendo por ninguém. Não temos nenhum personagem agradável o qual queremos que tenha sucesso. Nos identificamos com todos os seus defeitos e por isso queremos certa distância. Parece que o filme não sabe como deve terminar e então aparece o personagem menos filho da puta e tem seu momento de redenção catártica, mas que também o levará para o inferno.

Levaram uns 25 anos para Lumet acertar a mão de novo. Tomara que continue acertando assim por muito tempo.

  1. 14 abril, 2011

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