Benjamin Gump

Lembram daquele texto que todo mundo que tem e-mail já recebeu, que dizem ser do Charles Chaplin, sobre a vida ser injusta pois deveria começar do contrário? Não? Sim? Vou refrescar sua memória:

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?

Então.

Não queira comparar o texto com o filme. O texto é melhor. E olha que você lê o texto em uns 40 segundos. O tema da vida cronologicamente ao contrário é sem dúvida interessantíssimo. E é por não aprofundar nisso que enfraquece o filme. Tá, quer que o tema central seja o amor (ah! o amor!) tendo como barreira na maldição-benção de Benjamin? Jóia! Deveriam então ter trabalhado melhor a relação dos dois, que é sem química (também por causa dos efeitos, que limita os atores no toque). Quer que a motivação do personagem seja a curiosidade nesse mundão que vai na contramão de sua natureza? Ótimo, que mostre ele tendo desafios reais, e não só “vou ser um outro filho da minha mulher e não um pai para minha filha”, pois o resto incrivelmente ele tira de letra. O Sean Penn provou que pode ser um pai com idade mental menor que a da filha em “I am Sam”. Por que ele não? Ha-ha. E sem definir o tema central da história (nascer velho e morrer novo é só pano de fundo aqui), o filme empaca várias vezes nas suas duas horas e quarenta e cinco minutos.

No último ato, quando ele tem um objetivo, lidar da melhor forma possível com a paternidade, daí perdemos a oportunidade de ve-lo mais profundamente rejuvenescendo com sabedoria, sendo jovem sonhador com responsabilidade, sendo adolescente com sabedoria, aproveitando a infância com consciencia da sua duração e por isso mais intensamente. Tanta coisa potencialmente linda e profunda que o filme escolheu deixa de lado pra focar em coisas batidas e frases de sabedoria popular sainda da boca de todos os personagens como “viva a vida não importa a idade” que nem biscoitos da sorte ambulantes. E contados através de flashbacks da Cate Blanchet no leito de morte. “Tomates Verdes Frito” é ótimo, mas depois de “Titanic”, perdi minha tolerância para velhinhos contando histórias incríveis. Recuperei a tolerância com o ótimo “Peixe Grande” e perdi novamente com Benjamin Button.

Eric Roth, o roteirista de Benjamin, que também fez Forrest Gump, tentou repetir o sucesso e esconder em vão as semelhanças entre os dois. Vamos lá:

Tem mais de duas horas e meia (pra parecer mais sério e artístico) e é narrado pelo personagem principal.
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Personagem com dificuldades peculiares em relação aos demais no sul dos EUA.
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Mãe cheia de sabedoria e força para lidar com a diferença do filho para com o mundo.
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O filme conta a história ligando o personagem fictício a conhecidos eventos reais.
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Faz amizade com um negro esquisito.
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Viaja num barco com um capitão bêbado.
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Serve o país na guerra.
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Encontra o verdadeiro amor de sua vida na infância.
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Ela reluta esse sentimento mas depois de estar fodida volta para os braços carinhosos dele, agora que ele por sorte do destino ta podre de rico.
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Tem um filho e teme que ele seja que nem ele.
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Veja alguns exemplos no video abaixo.

Claro que não é certo julgar um filme apenas pelo que ele não é. O fato é que ele é bom e vale o ingresso (se pagares meia, melhor). Tem efeitos incríveis, grandes atuações (da mãe e de Pitt quando fazendo criança no corpo de velho), frases de efeito pontuais para você colocar no MSN e se sentir filósofo e por que ele vai abocanhar uns Oscars, ser bastante comentado e depois esquecido.

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