This is Spinal Tap e o "Mockumentary"

Nós cinéfilos e roqueiros comemoramos esse ano 25 anos do clássico “This is Spinal Tap”, do Carl Reiner, obra fundamental do cinema “mockumentary” (mock, em inglês, significa zombar, fazendo uma brincadeira com o nome “documentário” e sua popular idéia de realismo), uma espécie de subgênero dos documentários, que levanta várias questões importantes como: o que é documentário, como o documentário muda em relação ao contexto e a espectativa do espectador, o que é verdade no cinema, como a verdade se dá em estratégias formais, como o documentário é usado para desfazer a realidade, autoridade, o documentário em si e assim por diante. O mockumentary é aquele que é propositadamente trabalhado para enganar o espectador, que assim interage com a obra como se fosse um documentário. Isso é dado através da aplicação de códigos cinematográficos e as suas assossiações com a percepção e a recepção do espectador do documentário como estilo.

Ao mesmo tempo, o mockumentary precisa fornecer pistas, estratégias ou indicações que ele mesmo não passa de uma farsa. Sem isso, o filme seria percebido como um documentário, mesmo que ele tenha sido forjado na verdade. O mockumentary é dado como uma vanguarda pós-moderna e pós-estruturalista apesar de ter ganho o mainstream com o filme “A Bruxa de Blair”, filme que transcende a experiência do espectador com o filme quando ele é divulgado na Internet como história real. Muito do seu sucesso se dá ao fato de que grande parte dos espectadores não sabia que o filme, apesar da forma claramente documental é na verdade um mockumentary. O filme é vendido como um documentário de terror, algo supostamente inédito e muito mais assustador, devido à recepção do espectador ao formato realista do filme documental ser mais forte na identificação com as imagens no que num filme claramente ficcional.

No filme “This is Spinal Tap” o artifício do documentário falso é usado para a sátira. O filme é um documentário sobre uma banda de rock dos anos 70 lidando com o seu sumiço da mídia e seus excessos e tentando dar a volta por cima reunindo seus integrantes anos depois do seu quase final. O filme é recheado de cenas antológicas como o cenário inspirado em Stonehenge versão minimundo, o baixista preso no casulo, as apresentações fim de carreira e claro o amplificador que vai até o “11”.

O filme entra para história por trancender a comédia, o rock e até mesmo o cinema. A maior parte do público, sem saber que os integrantes da banda eram na verdade atores, não valorizou o filme. Já uma pequena parcela, a que sabia de antemão ou percebera durante a projeção a brincadeira de Reiner e seus músicos estranhos, transformaram o filme em “cult”, projetando a banda “Spinal Tap” para fora dos limites do filme, chegando a gravar discos e sair em turnê mundial. Este ano planejam gravar um acústico: “Unwigged, Unplugged and Undead”, algo como “Desperucados, Desplugados e Desmortos”. Longa vida ao rock! Não importa seus meios (e qualidade).

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