Kill Bill – Volume 1

Encontrei uma crítica que fiz para uma revista de locadora uns anos atrás pro Kill Bill.

Acho meio sacal texto que explica o filme todo preparando o espectador para vê-lo. Prefiro escrever pra quem já viu ou até pra quem não quer ver. Mas as vezes temos que cair na mesmice em prol do tal jornalismo informativo.

É legal ver o quanto melhoramos (ou não) nossa escrita com o passar dos anos.

“Bruce Lee, Sergio Leone, Shaw Bros, Hatori Hanzo, Animes, Chopsploitation são algumas das milhares de referências externas e internas que nos traz Kill Bill Volume 1, do diretor, roteirista, nerd e podófilo (não confundir com pedófilo) Quentin Tarantino, diretor de Pulp Fiction, e Cães de Aluguel. Se você não sacou algumas das citadas, não se preocupe, pois elas são enfeites dentro da narrativa, e não os verdadeiros motivos pelos quais você irá adorar o(s) filme(s). O filme foi dividido em duas partes para que não precisassem cortar nada importante dele em função da duração total (algo em torno de 3 horas e meia. A primeira parte mostra a história da vingança de uma noiva-grávida-assassina-profissional (Uma Thurman) que é brutalmente atacada por Bill (David Carradine,da extinta tele-série Kung Fu) e sua gangue conhecida como DiVAS (Deadly Viper Assassination) em pleno altar. Fica em coma por 4 anos e volta para acertar as contas com o sujeito e sua gangue outrora parceira. Já vimos essa história antes? Provavelmente. A questão não é qual história é contada e sim como. Nesse caso Tarantino utiliza de uma narrativa não-linear cronologicamente, com intenções bem delineadas, insere animação japonesa mas não apenas por ser uma opção “cool” . Se a história fosse contada linearmente, ou seja, com começo, meio e fim remetendo a nossa realidade, desencadearia uma série de reações no espectador que não seriam necessárias. Aliás, muito parece ser desnecessário. Isso tudo causa um estranhamento e distancia o espectador um pouco da identificação com a personagem. Afinal todos os motivos serão esclarecidos no Volume 2. O envolvimento que temos com a obra é puramente contemplativa, com cenas de luta fantásticas (coreografada pelo chinês alucinado Yuen Wo-Ping, de Matrix e O Tigre e o Dragão), diálogos bacanas, fotografia caprichada e conceituada sobre os filmes de luta de Hong Kong e faroeste italiano e uma trilha sonora espetacular que assim como nos filmes de Cameron Crowe (Quase Famosos, Vida de Solteiro) as cenas parecem serem pensadas a partir de uma música já pré-estabelecida. Não só a relação com a música, mas com as muitas homenagens dentro do filme, parece que muitas cenas são desculpas para encher a tela de cultura pop. O cineasta Jean-Luc Godard desde os anos 60 relacionava o filme com outras artes inserindo cultura erudita na película e quebrava com paradigmas dentro do cinema. No caso de Tarantino, a inserção de referências é pura homenagem, sem pretensão nenhuma, apenas entretenimento para todos. Desde os que captam as mensagens até os que não reparam nelas. Assim é muito mais democrático e digerível. O que Godard desconstruiu com a cultura erudita no cinema europeu, Tarantino construiu com a cultura pop no cinema hollywoodiano. Pena que todos esses aspectos de certa forma positivos foram ignorados por boa parte da crítica, que acusam o filme de ser violento. Ele é visceral, não necessariamente violento. Até a crueza e o aparente descaso estético de alguns momentos são propositais. Todas as lutas são estilizadas, exageradas e engraçadas. Nada remete ao real. O filme se tiver que representar alguma realidade para nos identificarmos, essa realidade não pertence a esse mundo. Não tem como levar a sério. “Cães de aluguel”, segundo o próprio diretor, é muito mais violento por ser mais realista e a identificação com os personagens ser mais plausível. Em Kill Bill centenas de litros de sangue são jorrados, corpos são cortados ao meio, cabeças explodem, membros voam, mas tudo sem causar repulsa e sim arrancando risadas e aplausos. Seja para se divertir bastante, apreciar uma belíssima trilha sonora, uma grande direção, movimentos de câmera que vão do tosco ao sublime, excelentes interpretações ou para identificar uma chuva de referências de cultura pop (recurso rejeitado estranhamente pelos filmes brasileiros), vale a pena ver esse filme tão igual a vários outros nele referenciados, mas melhor que todos juntos.”

De interessante mesmo achei minha comparação do Tarantino com o Godard e a citação do estilo Cameron Crowe.

Ah, e o filme continua bom desde então.

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