Milionário da Favela


Como um filme B feito para TV com elenco predominante amador ganha 8 Oscars e apesar de queimar o filme da cultura hindu é reverenciado no mundo todo (inclusive na India)?

A: Lobby agressivo
B: O filme é perfeito
C: Transe coletivo
D: Destino

Resposta:

D: Destino.

Que nem o filme, vou seguir uma lógica não-linear.
O destino resolveu que esse é o momento da Índia. Bollywood, música trash, livros de filosofia, cientistas, culinária estão invadindo o mundo. Antes mesmo de Slumdog ser concebido, tudo isso já vem borbulhando (até a Globo sacou com “Caminhos da Índia”) faz um tempo. Daí o fascínio ocidental com filme, que já chega amaciado, sem causar tanta estranheza até porque a produção é inglesa, parcialmente falado em inglês e com referências cinematográficas e temáticas conhecidas.

Para vencer o Oscar (que como o post abaixo ilustrou), não é questão de merecimento, e sim de momento. Lembram quando Babel, Labirinto do Fauno e Filhos da esperança abocanharam quase tudo que é prêmio? Era o momento do cinema “latino” (mexicano, whatever). Quando Denzel Washington e Hale Berry venceram como atores no ano que homenagearam Sidney Poitier, era o ano dos negros.

Acontece que Bollywood, apesar de surrar Hollywood em mercado interno, ainda não faz filmes totalmente palatáveis para o ocidente. Provavelmente nunca um filme Indiano ganharia um Oscar (Mira Nair não conta, to falando do padrão local) então se é pra celebrar o momento da India, que seja num belíssimo feel-good movie dirigido por um dos maiores cineastas vivos, Danny Boyle, que fez sua obra-prima no início da carreira (Trainspotting, de lá pra cá não se superou) mostrando uma Índia pra inglês ver e para o espectador gozar (em qualquer sentido). Indianos felizes, ingleses felizes, americanos ganhando mais abertura no mercado hindu e ponto.

Ah! Pra variar tem os xiitas que dizem que o filme é uma afronta à realidade indiana. Assim como os que reclamaram do Cidade de Deus. Algumas palavras pra essas pessoas:

Um filme nunca tem a responsabilidade de mostrar a realidade. Quer realidade? Ponha a cabecinha pra fora da janela e olhe pra rua! Quer realmente aprender sobre um país? Vá até lá! Se nem documentários conseguem ilustrar a realidade de um povo (e nem acho que deva necessariamente) que dirá de um filme de ficção e entretenimento?

Falando em Cidade de Deus, é possível que tenha referências sim, como a perseguição na favela, o jogo de críquete, a galinha (aparece 1 segundo, mas remete na hora), câmera na mão, fotografia estourada, montagem não-linear. Mas seria ignorância também afirmar essa chupação toda sem ver os filmes do Danny Boyle (anteriores aos do Meirelles). Sim, todos são alucinantes, pessoas correndo o tempo todo, não linear, câmera na mão, grande angular e ritmo frenético (Cova Rasa, Trainspotting, A Praia, Por Uma Vida Menos Oridinária, Extermínio, Sunshine). Até aqui me parece que o Meirelles deve alguma coisa para Boyle, e não o contrário. Enfim. Deixe que eles resolvam isso.

Quanto ao filme em si, ele é bom mesmo. A grande sacada do roteiro é te prender na primeira cena afirmando que o favelado assistente de telemarketing, Jamal, ganhou 20 mulhões de rúpias no show do milhão local por conta do DESTINO. O que parece simplório no começo vai tomando forma de maneira espetacular. A cada pergunta que Jamal tem que responder temos um flashback contando fatos marcantes da vida dele que o relacionam com a resposta. Na nossa memória estão alojadas toneladas de informações aparentemente inúteis em relação aos outros, o que pega é que às vezes precisamos dessas informações para alguma coisa. O destino quis que Jamal usasse as dele para alguma coisa importante. E não para ganhar necessariamente o prêmio milionário. Quanto a sua história, por mais trágica e sofrida que possa ter sido, se Jamal não se abala, porque nós deveríamos? Nosso herói se agarra num sentimento de perseverança por sobrevivência e de amor por Latika. Ao contrário de Salim, seu irmão manipulador e ganancioso, que vive pelo poder. Quanto a Índia retratada não parece tããão diferente de lugares miseráveis aqui do Brasil, mas não tenho cacife pra falar disso então prefiro falar do que sei (que bom seria se tantos outros fizessem isso também).

Não li o livro o qual o filme se baseia para julgar devidamente a montagem, mas mesmo assim aplaudo o ritmo do filme. Impecável. Ele consegue ser ágil sem deixar pra trás informações importantes. Ele recusa o slow-motion em prol de algo parecido com “fast flicked motion” (expressão que inventei agora praquelas quebradas no movimento) para destacar cenas de contemplamento no meio da correria alucinada. Legal também é, pela escolha da forma como a história é guiada, sempre queremos saber o como e o que acontece em seguida, já que o final já é sabido desde o começo.

A trilha sonora é daquelas que encaixam perfeitamente com o astral e o ritmo do filme. Me peguei cantando a música final horas depois de ter assistido, mas sei que se for me interessar em ouvir música pop indiana vou quebrar a cara. Certas coisas só funcionam em determinado contexto. Como tudo nesse filme. Não acho que se o Meirelles, Spielberg, Scorsese, Gondry ou qualquer outro diretor dirigisse o filme, com qualquer outros ator, filmando em qualquer outro país em desenvolvimento, o filme teria o mesmo resultado.

É destino mesmo.

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