Dr. Fantástico – a concepção.


Há 45 anos era lançado meu filme favorito. Nunca escrevi nada sobre ele pois não conseguir descrever tudo o que sinto. E filmes favoritos merecem melhor tratamento. Um dia quem sabe declare meu amor pelo Peter Sellers e pelo Stanley-Malucobeleza-Kubrick. Enquanto isso divulgo uma matéria deliciosa sobre a concepção do filme que achei aqui e resolvi traduzir:

4 de Novembro de 1961. A carta enderaçada ao escritor Peter George parecia estranha vindo de um homem que havia dirigido atores como Laurence Olivier, Kirk Douglas e James Mason. Era manuscrita pelo próprio diretor com um certo toque de modéstia: “Primeiro deixa eu te dizer quem eu sou”, assim começava. “Eu sou um diretor de cinema (Glória feita de sangue, Spartacus, Lolita). Eu estive na Inglaterra no último ano e retornei a Nova Iorque semana passada na expectativa de contatar você aqui.

Stanley Kubrick então explicou que ele se interesseou pela “situação nuclear” e estava procurando o material certo para adaptar para o cinema: “Eu estou ansioso em busca de uma história nessa área e seu livro está MUITO PRÓXIMO disso”, ele disse a George. Sendo Kubrick, entretanto, ele não resistiu oferecer algumas algumas críticas do livro que ele achou que o tornaria inviável. Uma dessas críticas, ironicamente, era a idéia de dispositivos de hidrogênio escondidos nos Urais feitos para detonar automaticamente caso a União Soviética fosse vítima de um ataque nuclear – o que seria notavelmente lembrado como “The Doomsday Device” (dispositivo do fim do mundo) na obra prima “Dr. Fantástico ou: Como Aprendi A Parar De Me Preocupar E Amar A Bomba“. Menos de 2 meses após essa carta, George e Kubrick começaram a trabalhar no roteiro para o filme.

Isso então virou uma anedota lendária: Stanley Kubrick começou a adaptar o seríssimo thriller nuclear “Two Hours to Doom” (Lançado nos EUA como “Red Alert”) e , de repente, desconcertado pelo ridículo disso tudo, transformou a história num pesadelo satírico seminal. Então é surpreendente que quem ler o livro de George descobrirá o quanta semelhança ele realmente tem com Dr. Fantástico – a estrutura, o incidente, personangens. As similaridades e as diferenças merecem uma análise de como esse clássico se recusa a envelhecer e como ainda mantém sua habilidade de provocar simultaneamente risos e terror, 45 anos após seu lançamento.

O filme segue o livro intercalando entre o Pentágono, a base da Força Aérea onde começa a crise e o caça que invade o território russo. No livro o General Quinten (General Jack D. Ripper no filme) declara que os EUA estão em uma guerra com os russos, isola a sua base militar “Sonora” de comando estratégico e ordena seus caças que a essa altura estão aos arredores da USSR que bombardeiem seus alvos. No Pentágono, General Franklin (Col. Buck Turgidson no filme), humilhado por essa decisão inesperada de um de seus oficias, tem que confrontar o Presidente sobre o que ocorreu. Enquanto o faz, entretanto, os outros generais começam a pensar que talvez a melhor forma de agir nessa ocasião é seguir a ofensiva maluca de Quinten com força total. O Presidente preocupado com a moralidade desse ato e o fato dos soviéticos talvez terem o dispositivo do fim do mundo, decide convidar o embaixador russo para a sala de guerra do Pentágono para coloca-lo em contato com o Premier Russo e convence-lo que o ataque não foi intencional e trabalharem juntos para que ambos cancelem os ataques ou derrubem os aviões americanos. De volta a base militar de “Sonora”, seu executivo, Major Paul Howard (Mandrake no filme), confronta Quinten por sua decisão e tenta cancelar o ataque descobrindo qual o código para abortar a missão (que é revelado no final do filme ser as primeira letras de “Peace On Earth”, paz na terra) . Enquanto isso militares americanos tentam atacar essa base para conseguir o código também.

A essa altura a equipe do caça Alabama Angel (Leper Colony no filme), convencidos que os EUA estão sendo vítimas de uma horrível ataque nuclear, seguem invadindo território russo para atacar com suas armas nucleares. Nem precisa dizer que o livro não termina com Dr. Fantástico falando passionalmente sobre preencher os abrigos nas minas com mulheres sensuais para repovoar a terra nem tem um cowboy “cavalgando” um míssil. Ao invés disso, o caça Alabama Angel erra o alvo e acaba bombardeando um pedaço de terra desabitado, mas não antes do presidente oferecer Atlantic City como bode sacrificado para os Soviéticos para compensar as perdas presumidas do lado deles.

A tensão do livro é quase insuportável, e Kubrick reconhecia uma boa estrutura de história quando via uma. Mas enquanto George (ex-oficial da aeronáutica) apresenta aparatos militares que funcionam suavemente, Kubrick parece mais interessado em exatamente o oposto, destacando os meios em que a comunicação falha e traz o caos. Muito do humor de Dr. Fantástico é construído em ligações telefônicas quase falhas – da ligação que informa Turgidson da ofensica nuclear de Riper enquanto está no banheiro até desastrosa tentativa do Presidente americano tentar falar pelo telefone com o bêbado Premier russo (Olá, Dmitri? Escute, eu não consigo ouvir bem, você poderia baixar a música um pouquinho?) até a inabilidade de Mandrake em achar trocado para lugar pra Casa Branca de um orelhão.

Como Robert Kolker observou em seu estudo do cinema americano, A Cinema of Loneliness:

Não há interrelação entre esses lugares, sem comunicação. Cada um opera de sua forma. Mesmo dentro dessas áreas, ninguém fala com ninguém, apenas para si mesmo. Ninguém ouve, ninguém responde… Na verdade (Dr. Fantástico) é um filme sobre linguagem que cria sua própria destruição, sua própria morte e a morte do mundo.

Kubrick foi sempre fascinado pela quebra de comunicação (seu próximo filme, 2001: Uma Odisséia no Espaço explora isso mais a fundo). Mas ele também é fascinado pelos paradoxos da própria linguagem. De fato, era em partes a linguagem da guerra moderna que o levou a seguir uma rota cômica nesse filme.

Após os rascunhos iniciais, Kubrick e seu parceiro de produção James B. Harris, com quem ele fez O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue, e Lolita trabalharam o roteiro em Nova Iorque. “Eles viraram noites mexendo com o impulso de injetar humor”, diz Mick Broderick, o autor de Nuclear Movies e um extenso estudo sobre Dr. Fantástico. Harris em breve deixaria o projeto para construir sua própria carreira de diretor com o elogiado filme O Caso Bedford sobre o confronto entre um destroyer americano e um submarino russo. Mas quando Kubrick chamou seu antigo parceiro dizendo que decidiu transformar o filme realmente em uma comédia, harris estava no mínimo cético. “O garoto vai arruinar a sua carreira”, pensou Harris.

O absurdo hilariante da situação nunca deixou de atormentar o diretor enquanto ele e George trabalhavam no filme. Kubrick estava aprendendo muito sobre o pensamento por trás da estratégia termonuclear. O diretor, notório por pesquisar obsessivamente os temas em que trabalha, ficou próximo de inúmeros cientistas e pensadores do tema, alguns com a ajuda de George, incluindo o estrategista Herman Kahn, o qual falava friamente sobre “megadeaths”, uma palavra criada nos anos 50 para descrever 1 milhão de mortes. Assim como Kubrick contou para Joseph Heller:

Incongruência é certamente uma das fontes de risadas – a incongruência de sentar em uma sala e falar com alguém que tem um quadro grande na parede escrito o item “ambientes pós-guerra trágicos mas distinguiveis” e este diz “um a dez milhões de mortos”… tem alguma coisa tão absurda e irral ao falar disso que é quase impossível de levar a sério.

Mas talvez Terry Southern descreveu melhor. Num artigo nunca publicado que ele mandou para a Esquire, o escritor americano que virou o próximo colaborador de Kubrick no projeto escreveu:

Estratégias nucleares sofisiticadas também tem linguagem própria. Elas vão envolvendo gradualmente terminologias livres de conotação moral ou até mesmo humanas. Elas não usam, por exemplo, nenhuma forma da palavra ataque, mas ao invés usam o termo “tomar” – o que soa mais como algo num jogo de tabuleiro que o que realmente significa.

Um pioneiro do Novo Jornalismo e uma inspiração para os Beats, Southern era um perito nas formas alienantes da linguagem. (Uma lembrança sua da produção de Dr. Fantástico que escreveu para o Grand Street em 1994 está cheio de instantes de falha de comunicação, mais notavelmente na sua análise do ator caipira recém-chegado Slim Pickens e do produtor britânico Victor Lyndon que não conseguiam se entender). Ele também estava familiarizado com os diálogos requeridos em todos os ambientes do filme. “O filme se tornou algo sobre paradoxos, inconsistências e retórica. Foi a genialidade de Kubrick que fez isso tudo funcionar, mas nem ele nem George tinham um material suficientemente bom até então. Eles tinham que ter algo de atraente dentro desse humor dicotômico. Aí é que entrou Terry Southern”. Disse Broderick.

Southern foi contratado quando as cameras já estavam rodando e trabalhou no roteiro por um breve período, frequentemente trabalhando no banco de trás do carro de Kubrick (um Bentley) o qual foi equipado com lâmpadas e máquina de escrever, durante o percurso de casa até os estúdios de Shepperton. Sua contribuição transformou o que era uma comédia disforme em algo muito mais definido e específico. “Terry tinha um refinado senso de humor”, lembra seu filho, Nile Southern. “Ele era bem treinado em manter o realismo… Ele entendia que na comédia, você tem que manter as coisas críveis, senão tudo desaba.

E realmente, no papel, o humor de Dr. Fantástico é surpreendetemente sutil. Pela primeira metade do filme, a maior parte das cenas dançam no limite da comédia, com elementos cômicos aparecendo apenas brevemente. Incrivelmente, dá pra ver alguns momentos embrionários cômicos mesmo no livro. Veja essa cena, quando Howard, tendo ouvido transmissão local de rádio e se convence que os russos não estão atacando a América, marcha até o gabinete de Quinten, que acabou de lançar a Terceira Guerra Mundial. Quinten diz:

“Nós aprendemos muito sobre o Comunismo e seus seguidores. Nós também sabemos que podemos ser atacados a qualquer momento. Então, suponha que um ataque súbito destrua todas as bases, exceto essa. Suponha que alguém de alto escalão saiba o código do dia do general. Alguém que seja um comunista, ou um simpatizante.

“Isso nem é uma possibilidade”, diz Howard nervoso.

“Você está errado, Paul. É uma possibilidade. Num mundo que pode se contruir uma bomba atômica e gerar suas próprias luas artificiais, até contemplar a viagem espacial, nada é impossível. Nada. Oh, eu concordo que a possibilidade é bem remota, mas ela existe. De qualquer forma, suponha que as coisas aconteceram como eu disse.”

Há uma oportunidade natural para a comédia no final – uma que George certamente não usa. Ele quase usa duas páginas depois, quando Howard fala para Quinden que “eles estão moralmente errado” e o superioro interrompe, “Eu argumentaria isso. Mas vamos nos deixar levar pelo momento”

Tais pivôs eram exatamente o que kubrick estava procurando. Breves, sutis instantes de humor que poderiam jogar a cena para outra direção. Nessa materia para a Esquire, Southern oferece uma citação de Kubrick que diz o quanto o diretor quis o humor dentro do filme: “Eu acho que essa surpresa… mesmo que aconteça no amor, na guerra, nos negócios ou qualquer coisa, produz maior efeito de todos os elementos. Ele dá ao momento a emoção de uma posição para a outra e você sente este empurrão extra de arrepio e descoberta… As pessoas não gostam que contem tudo para elas – Quero dizer, eu não acho que elas não gostam nem mesmo de serem avisadas que seu ziper está aberto.”

O que também ajudou foi que Kubrick nunca abandonou a idéia de fazer um thriller político. Dr. Fantástico se mantém entre dois impulsos que emergiram no final dos anos 50 e começo dos 60. “A sociedade americana estava começando a ser mais autocrítica”, diz Broderick. “O impluso satírico começava a emergir através do trabalho de Jules Feiffer, Revista MAD, e outras publicações satirizndo Eisenhower”. Ao mesmo tempo, entretanto, dramas políticos e thrillers começaram a confrontar as sagradas instituições políticas, em particular os complexos industriais-militares: Dr. Fantástico pode ser uma comédia, mas também se mantém ao lado de filmes como Seven Days in May, Sob o Domínio do Mal, Vassalos da Ambição, Limite de Segurança (este foi processado por George e Kubrick pela absurda semelhança com o livro)

Podermos argumentar que Red Alert nunca realmente ficou ultrapassado. Ele ainda está aqui, escondido na comédia de Dr. Fantástico. Mesmo tirando todo o humor da primeira metade do filme, ainda temos uma grande drama de suspense sobre a era nuclear. Talvez por causa disso mesmo quando rindo da era nuclear, Kubrick mantinha seus medos. Broderick descobriu que durante 1961 e 1962., o diretor, convencido que a guerra era inevitável, começou seus planos de se mudar com sua família e trabalho para a Austrália: uma versão real das minas subterrâneas de Dr. Fantástico. “Ele citaria os judeus que viram o Holocausto chegando esaíram da Alemanha”. diz Broderick. “Ele honestamente sentiu que poderia se mudar para a Austrália e continuar a fazer filmes por lá depois de uma guerra nuclear”. Depois de viver a crise cubana dos mísseis, entretanto, ele mudou de idéia, decidinco que Dr. Fantástico seria sua resposta para os absurdos da guerra nuclear. Talvez, dizendo de outra maneira, Kubrick finalmente achou uma forma de parar de se preocupar e amar a bomba.

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