30 anos de ‘Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!’

30 anos de ‘Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu!’

De Matt Zoller Seitz para o New York Times.

Quando os criadores de Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu! faziam a audição de atores para sua paródia de travessuras três décadas atrás, alguns dos atores mais sérios tiveram a preocupação de como o papel poderia prejudicar suas carreiras. Um dos participantes mais nervosos: Peter Graves, a estrela taciturna de Missão Impossível, interpretou o piloto no filme, um idoso gentil que recebe um pequeno garoto chamado Billy na cabine e pergunta coisas como “você já viu um homem adulto pelado?”.

“Seu agente lhe deu o roteiro, e ele ficou totalmente desanimado”, disse Jerry Zucker – que escreveu e dirigiu o filme com seu irmão David Zucker e com seu amigo de infância Jim Abrahams – durante recente entrevista telefônica com seus velhos parceiros. “Ele achou que era um lixo de mau gosto.”

Abrahams interveio, com sua voz impassível: “Não compreendo. O que ele achou de mau gosto na pedofilia?”. Graves (que morreu em março) não precisava ter se preocupado. Meses após sua estreia em julho de 1980, Apertem os Cintos… se tornou a comédia mais lucrativa na história das bilheterias, uma distinção mantida até o surgimento de Os Caça-Fantasmas em 1984.

O filme continua sendo um dos mais influentes. Seu besteirol em que tudo vale e suas referências furiosas à cultura pop podem ser vistas na implacabilidade de 20 piadas por minuto de Os Simpsons, South Park e Uma Família da Pesada, além de paródias para o cinema cheias de surpresas como Deu a Louca em Hollywood, Uma Comédia Nada Romântica e a franquia Todo Mundo em Pânico (cujas partes três e quatro foram dirigidas por ninguém menos do que David Zucker). Ele também inspirou Apertem os Cintos… o Piloto Sumiu 2 em 1982.

Uma aposta no escuro

Em 1979, quando Apertem os Cintos… estava sendo filmado na área externa dos estúdios da Universal em Los Angeles, ele não parecia ter potencial para o sucesso. Os três cineastas de Wisconsin ficaram impressionados por alguém dar um orçamento – US$ 3,5 milhões – para filmar tamanha bagunça, ainda por cima uma sem grandes estrelas.

Produzido depois de seu cultuado filme de 1977 The Kentucky Fried Movie, que o trio de cineastas escreveu, o longa seria uma versão estendida de Zero Hour!, um taciturno suspense de 1957 sobre uma aeronave em perigo que virou modelo para o meio século seguinte de filmes de desastre.

A quantidade de referências à cultura pop e a atitude ‘tudo por risadas’ de Apertem os Cintos… lembravam os primeiros filmes de Mel Brooks (Banzé no Oeste) e Woody Allen (Bananas). Mas sua velocidade e densidade eram novas. Cada cena era repleta de piadas surreais, com frequência levemente metaficcionais (como a aparição do gigante da NBA Kareem Abdul-Jabbar como um copiloto que nega ser Kareem Abdul-Jabbar, e uma participação especial de Ethel Merman interpretando um paciente psiquiátrico que acha que é Ethel Merman). E o filme apresentava piadas impressionamente velhas com tanto orgulho que de alguma forma elas intoxicavam e se tornavam hilárias (como trocadilhos infames).

Ao mesmo tempo, Apertem os Cintos… não era apenas uma junção de pedaços. A narrativa seguia a de Zero Hour! e, se você conseguir separar todas as bobagens – nada fácil em um filme que transita de um flashback romântico inspirado em Casablanca a um número de dança de Os Embalos de Sábado à Noite -, o que resta é uma peça cinematográfica compacta e até clássica.

“Muitas comédias nos últimos 30 anos quiseram ser Apertem os Cintos…”, disse Patton Oswalt, comediante, ator e a voz do herói em Ratatouille. “Mas a maioria desses filmes pegou a mensagem errada do Apertem os Cintos…. Eles foram piada, piada, piada, enquanto Apertem os Cintos… tem realmente uma estrutura, sempre conduzindo a história. De uma maneira esquisita, é como um filme dos Beatles. Parece ser a coisa mais fácil do mundo, mas é preciso muito suor e sangue.”

A equipe de cineastas Z.A.Z. selecionou atores quase desconhecidos – Robert Hays, coestrela da comédia Angie, e a profundamente excêntrica Julie Hagerty de voz angelical – para interpretar os amantes distanciados. E encheram a produção com atores robustos e sem glamour, como Graves, Robert Stack, Lloyd Bridges e Leslie Nielsen, que construiria uma segunda carreira humorística como provocador de caos e sem noção.

Hays, que interpretou Ted Striker, o ex-piloto militar traumatizado que tinha um problema com a bebida (ele jogava a bebida no rosto), disse que Nielsen, um brincalhão, manteve uma importante influência sobre o tom do filme. Nielsen mantinha os atores desequilibrados, interrompendo suas falas usando seu suporte cômico favorito, um brinquedo de mão que simula flatulência.

“Ele tocava aquela coisa como um maestro”, disse Hays, que convenientemente é um piloto licenciado para pequenas aeronaves desde o final dos anos 1970. (“Até hoje, quando me dirijo ao avião, às vezes recebo olhares do tipo ‘tem certeza que quer entrar aí?’.”)

A trama nominal de Apertem os Cintos… conta os esforços de uma fiel tripulação aérea que tenta aterrissar um avião comercial depois de um peixe estragado incapacitar a maioria dos tripulantes e passageiros.

Havia muita esquisitice para mostrar, e quando o elenco finalmente pegou o espírito da coisa, alguns dos veteranos – aqueles que estrearam em dramas solenes de televisão e cinema ou ainda seriados de humor com conteúdo – ficaram desnorteados a princípio. Barbara Billingsley nunca imaginou que seu papel como uma santa mãe suburbana em Foi Sem Querer a levaria a uma participação especial em Apertem os Cintos… como a mulher que se oferece para interpretar os dialetos da rua legendados de alguns passageiros. (“Aeromoça? Eu falo besteirol.”)

“Ela estava totalmente nervosa, mas leu a cena basicamente da maneira que você viu no filme”, disse Abrahams. Jerry Zucker acrescentou: “Ela foi convincente sem tentar ser engraçada, que é o que queríamos.”

Se o filme inteiro ficasse de rosto impassível, ele não teria o mesmo efeito energizante no público, disse Hays. Ele credita o sucesso do filme à mistura sem precedentes de atuações ridículas e explosões de cenas humorísticas e anárquicas. Uma de suas favoritas: “Repórteres terminam uma entrevista dizendo, ‘OK, gente, vamos tirar umas fotos’, e eles começam a tirar coisas das paredes.”

Ele continuou: “As pessoas me dizem, ‘vocês foram os primeiros a fazer aquele tipo de comédia’, e eu respondo, ‘obrigado’. Mas a verdade é que nós estávamos seguindo os passos dos irmãos Marx, Laurel, Hardy e The Goon Show. Foi uma grande evolução, e nós fomos por acaso um dos passos nesse caminho.” A equipe tenta colocar a experiência em perspectiva e ser humilde. Mas não de uma forma que possamos notar.

“Muito aconteceu nos últimos 30 anos”, disse Abrahams, “mas uma coisa que David, Jerry e eu partilhamos é que, quando tivemos filhos, a primeira coisa que fazíamos quando os acordávamos pela manhã era perguntar: ‘Qual filme o papai dirigiu?'”

The New York Times

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