Skyflaw, com todos spoilers.

Não sou chato com realismo no cinema. Muito pelo contrário.

Mas tem que ter coerência na proposta.

O que sempre me fascinou em muitos dos filmes da franquia 007 é ele ser assumidamente forçado, cool e divertido na dose certa. Na dose de sua coerência.

Agora a crítica vem rasgar elogios para Skyfall como sendo realista e um dos melhores da série! Ahn?? Desde quando realismo tem a ver com qualidade? E esses críticos viram o mesmo filme que eu, será?

Sim, confesso, a fotografia é primorosa (mas é o mesmo que dizer da moça que é “gente boa”), a direção é fantástica, os atores sensacionais. Mas o enredo… Deixa Carga Explosiva parecer bergmaniano. Sim, os filmes de Bond tem que seguir preceitos tradicionais (alguns criados por eles mesmos e outros pelo gênero de aventura e espionagem) e raramente tem roteiros que transcendem, virem dignos de nota.

O problema do Skyfall não é o roteiro ser ruim. É o roteiro ser ruim enquanto todo o resto é ótimo. Dá uma sensação falsa de que o filme é excelente. Mas ele não é. Há uma distância da expectativa com a realidade.

Vou dar um exemplo.

Um dos meus 007 favoritos é o Um Novo Dia Para Morrer (Die Another Day). Sim, o da música horrível da Madonna. Este filme tem todos os elementos Bondnianos além de ousar em sequestrarem ele e torturarem o espião, mostrando um pouco de fraqueza (bem antes de Cassino Royale) ao mesmo tempo que tinha um enredo absurdo e cenas espetacularmente inverossímeis. Esta abaixo é de longe a minha favorita de toda a franquia. O trecho em questão está entre o minuto 01:50 e o 02:25.

Uma homenagem as cenas mais inventivas, que emulam o perigo extremo com a reação cool de Bond, como se desdenhasse: “Nhé, eu faço isso todo dia”.

Em Skyfall, as homenagens aos filmes feitos nesses  50 anos de franquia são bem sutis e inteligentes, mas infelizmente tratam os ícones referenciados como algo ultrapassado, obsoleto, de um tempo remoto. Não são incorporados de forma positiva.

O que mantém mesmo intacto é a boa e velha introdução de ação inexplicada que aos poucos vamos entendendo o objetivo enquanto Bond faz peripécias em algum lugar perigoso do globo. E essa introdução é uma das melhores de todos os tempos.

Quem sai ganhando também é o elenco. A “M”, de Judi Dench, é praticamente a protagonista do filme. Moneypenny está provocante como sempre e perigosa como nunca. Ralph Fiennes (que já foi meu candidato a Bond, não que alguém se importe) tem uma entrada na franquia muito bem-vinda, no lugar da Judi Dench mesmo. Um novo “Q”, que já foi de John Cleese, nunca mais vai me fazer sentido. Daniel Craig, que está bem seguro como Bond, assumiu com propriedade o papel, tem dois momentos silenciosos curtos e memoráveis. O primeiro é a elegante ajeitada no botão da manga quando pula de uma escavadeira para dentro de um vagão de trem, e o olhar perplexo ao avistar um Dragão de Komodo de perto (sempre tem que ter animais exóticos).

Mas o que marca mesmo é o vilão, Silva (oi?), sendo de cara um dos melhores de todos já encarnados. Javier Bardem tira leite de pedra (pra não dizer de outra coisa) e o faz ser amedrontador, meticuloso, brilhante, afetado e sempre a um passo da demência. Ele tem um plano de vingança contra M, que o traiu num passado distante, e agora ele quer ver ela morrer de perto.

Aliás aqui vai uma crítica à crítica em geral, que insiste em achar a relação tanto de Bond, como a de Silva, com a figura maternal de M, como sendo algo profundamente Freudiano/Edipiano: Ou estes nunca leram a obra Freud e a tragédia Édipo Rei, ou viram o filme chapados.

Psicanálises à parte, o Silva de Bardem só não entra pruma lista de vilões extrauniversais (como o Coringa o fez e ele mesmo em Onde Os Fracos Não Tem Vez) porque aqui o roteiro mediano quase que o transforma num completo imbecil.

Silva, mesmo sabendo que Bond está velho, com o braço fodido, sem conseguir estabilidade para atirar, afetado pelo alcoolismo, reprovado no teste psicológico e na avaliação geral de agente, acaba ainda assim dependendo demais das habilidades de James Bond para que seu plano ultracomplexo de vingança contra M dê certo.

Bond tira os estilhaços de um tiro de uma submetralhadora que leva no ombro que por pouco não o mata. Assim descobre que essa munição disparada a rodo é de uma fonte rara feita de urânio (!), que só uns 3 caras usam (mas usam!) e chegam no rapaz que quase o matou, capanga de Silva.

Daí Bond seduz uma francesa prostituta, entra no barco dela que está cheio de capangas, transa com ela, na manhã seguinte da um oi básico no convés, e deixa ser preso para encontrar Silva numa ilha abandonada (só eu achei essa cena sem sentido algum?). Daí Silva conta todo o seu plano (claro), mata a prostituta e só então Bond parte pra ação, dando uma surra nos capangas. Logo a cavalaria chega e Silva deixa-se ser preso (Porra, Silva).

Ele acaba confinado numa prisão de vidro (Loki? Vingadores? Alguém?). Será que ele se deixou se prender de propósito? Dã. E se o coitado do Bond não consegue dar um fim nos capangas, eles lutariam até a morte com o reforço militar?

Mas até aí tudo bem, a prisão é pra dar a tal surpresa (principalmente pra quem não viu o filme evento da Marvel). A equipe de inteligência então vai tentar decifrar o código criptografado em seu notebook.

Bond, milagrosamente, decifra em segundos (o que um bando de nerd não conseguiria em dias, provavelmente), o que acaba sem querer autohackeando todo o sistema (de novo) do MI6, liberando Silva de sua cela. Até aí tudo bem, mas já que isso fazia parte do plano desde o princípio, depender da inteligência de Bond pra dar certo (Porra, Silva) para que assim ele conseguisse se libertar e atentar contra M no tribunal (curiosamente vigiado por apenas 3 guardinhas, mesmo com a primeira ministra lá dentro) já me parece fé demais.

Pra fugir do fuzuê causado no tribunal, Bond leva M, em segredo, para a casa de campo onde cresceu e onde estão enterrados seus pais, na Escócia. Um lugar isolado chamado “Skyfall” (Aaaaaahnnn). Avisando Q e o novo chefe do IM6, Bond pede que emitam sinais para Silva poder localizar M, assim se preparando para receber o vilão em território isolado e meter chumbo nele. O plano é tão estúpido, mas tão estúpido, que não dá pra acreditar que veio de um roteirista pago. Sem contar que esse momento lembra em muito outro filme deste ano, Looper, onde o herói tem que proteger uma família numa casa de campo (que tem passagem subterrânea também) de um assassino que é ele mesmo no futuro, mas isso é outra história. Outro momento de outro filme que eles ousam plagiar discaradamente é o ato final de “O Alvo”, clássico do John Woo com o Van Damme. Lembram? Van Damme foge com a mocinha para uma fazenda, encontra seu tio bonachão caçador, avisa que tem uma porção de carinhas malvados vindo atrás, e o trio, com poucos recursos, vão usar da criatividade para dar um jeito no bando.

Duvida?

Aqui tem um resumo de 10 minutos do filme. A parte que interessa está em 05:05.

Silva, muito malandro, manda uma dúzia de mercenários entrarem na casa e saírem metralhando tudo. Um deles acerta M. Gozado que depois que essa primeira leva de figurantes morre, Silva vem de helicóptero com a segunda leva e avisa pra ninguém matar a velha, que é dele. Porra, Silva! Então pra que mandar um bando antes de você chegar e sem dar o recado? Claro que no final Bond mata Silva em cima do laço, M não resiste o ferimento e morre (missão cumprida, Silva), e o tiozão vivido pelo Albert Finney, fica lá com cara de “Se eu sair de cena agora alguém vai perceber? Cadê o café?”.

Então tudo volta ao normal no MI6, sem rancor, sem dor, sem graça.

Assim o filme funciona muito mais como uma despedida de Judi Dench, do que uma aventura de 007.

No máximo um resultado bom.

Mas o final de “O Alvo” é bem melhor.

Exagerado, épico e lindo.

E não se discute.

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